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Ontem asas, agora, garras.

A sabedoria está nas garras, não para onde o vento leva com asas.
Foto: arquivo pessoal.

Numa dessas raras vezes que a sobrevivência não é algo contado, enfim, abro a janela, e não foi o dia que clareou mais uma manhã para ser. Foi o olor de infância que se adiantava concorrente com a velocidade que trespassei quase quatro décadas existindo. Era uma velocidade silenciosa daquela ser pequena incipiente de deveres e consequências.
O Cheiro da Terra do Meu Quintal. Faz tempo, ignorante cresci sem dar-lhe espaço de inspirá-lo. Coube em mim compromissos de ar. Coube engrandecimento das asas. Coube, hoje, o pouso entre-quedas nesta mesma terra que cheira tão gostoso em meu quintal, quando ainda engatinhava.
Possíveis retratos que desafiam o conceito de Nietzsche ao referir-me à História: a esperança não olha para trás, mas a atrai para qu’eu troque as asas pelas garras em total símbolo (de luta) pela liberdade. A própria casa, o olor do quintal. A brincadeira perene, o perfume da roupa em dias de bonança.
O cheiro é o impulso do outro. Aquela coisa mansa, de casa, de ficar à vontade no abraço da História como se fosse na cama. Engatinhei por lençóis, testei força agarrando ainda com mãos pequenas os fios tecidos de memória. Respirei fundo o olor de fora. Era bonito exalar o que fui. Soltei-a do tempo.
A mesma terra do quintal, hoje, tem apenas marca dos passos. Tornou-se funda. Ontem, de mãos pequenas e escrevedoras com gravetos, era composta por todo corpo nele estirado, ajoelhado, desenhado, plantado. Hoje basta-me um papel advindo de qualquer caule. Fui uma folha desta terra que migrou com a nuvem, voltou saudosa com qualquer redemoinho contemplando-se, afinal, inovadora em uma única imagem de meu tempo: o olor. 

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