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Qual minha dor, Afrodite? O teu medo.

Enquanto Safo descrevia a vicissitude das linhas corpóreas d’um deus grego frente a sua amada dele (e dela), a poeta se incompreendia entre o desejo e o ciúme. Ora, moça, desejo e ciúme são irmãos. 
Foi o que observei dos dois naquela passagem festiva que vivi. Para ela, o marido, um deus grego no qual ela apoiava uma busca-amostra de amor e carinho aos olhos de todos com seus frágeis braços morenos em volta d’um pescoço velho e flácido, aos meus olhos. Pela primeira vez meu segundo corpo, o de dentro, entrou em consonância com o primeiro, o do ambiente. 
Meu segundo corpo, apenas uma voz que conta toda sua escuridão, antes esquecido como oco, mas nada é oco, é deslizante como óleo e inconfundível guia que acha o fim do labirinto entre paredes moles. Do avesso é medicina, lugar escuro como a noite da festa. Boa noite, coração danadinho. Então és tu que reages repetindo o som surdo de suas partes moles e orgânicas com frenético sangue corrente, rápido, epidêmico, furioso, maquinal. Que reages de dentro à Fedra lá fora do meu primeiro corpo. Meu primeiro corpo existe um bicho feroz de espécime inominável. Meu primeiro corpo tem faróis do instante ambiente, o resto seriam meus punhos raivosos se fechando... Se eu espancasse aquele cara com toda fraternidade do desejo e do ciúme, certamente ele não sobreviveria. Tomei consciência de mim. Cega. Móvel, móvel, móvel. Dolorida, cheia de sangue. Cheia de sangue. Sangue violento e tempestuoso que tudo move. 
Não precisei d’esforço algum... É como mover o fim do mundo. É minha consciência que move as mãos desse segundo corpo meu. Balanço, pois, a cabeça. Um sino de meu templo. Este avesso nojento é medicina. E olho a paisagem. Olhos são janelas, luzes. São punhais! Se eu espancasse aquele cara com toda fraternidade do desejo e do ciúme, certamente ele não sobreviveria. Ah, o susto. É tudo junto.
E ambos, de frente para o outro, se olhando e definindo para cada um que aquele corpo ambiente, entre ela e ele, é coisa de chupar, é coisa de lamber. São outros espécimes ferozes.
Calçava eu o meu melhor salto. Pisava eu pelo salão o meu melhor título acadêmico. Tinha eu namorada e ela casada. Divulgava eu a postura ambiente resumida em bíblica seriedade testemunhal. Mas o que é a luta quando ela toscamente desvia seu olhar a mim e me reconhece?
Sobre os corpos, o nosso número um, ambiente que ocupa, revela a pastagem. Estamos aqui na tentativa de semear um contato brando, dedilhando os pontos monossilábicos com os olhos uma na outra tentando organizar os átomos as palavras de cumprimento. Até inventamos um pois é e nos sujeitamos a encontrar no seu som reticente um significado que perdure o mundo após nosso contato. Confiamos nas canções legitimas que o ambiente assopra na música. Acreditamos nas palavras uma da outra como instrumentos, de uma orquestra que se chama linguagem. 
É como levar adiante a lonjura da cerca do que é deixar o outro entrar. E o que fazer com este pasto? O corpo ambiente é poderoso, planta nele o que pode ser milagre da natureza. Abraça outros corpos do meu afeto. É uma espécie de poder. Ela e eu nos sentimos poderosas uma com a outra nesse ambiente. E descrevemos o que queremos que seja visto. 
É delicioso escrever para disfarçar. Diante dos convivas festivos e bem vestidos nesta noite, foi desenhada por nós duas a cena de tentáculos de finos saltos. Que tenhamos uma boa festa.
Nosso diálogo tem a cadência inspiradora de sons comportados e raros, como qualquer fina mulher de porte limitado e distinto o faria. Duas atrizes de beleza inconfundível no meio do salão. São bem nítidas. Uma de cabelo avermelhado como um maribondo agressivo, outra de escorridos cabelos curtos e tingidos de negros, que mais acabavam de minguar um corpo de vítima. Um corpo esguio e pequeno que dá medo de olhar, com cintura bordada por anjos no interior de um vestido longo de gala. Pequena. Bem pequena. Morena suave. Esquálida de movimentos sutis. Ela contorna nosso diálogo. Isso, hum, pois é, hum, pois é, é isso, como desvio de câmera d’um cinema antigo, calma como filósofa experiente. Não grita. Não tem vícios visíveis. Ela diz que vê enxergando esse corpo que ela cria. E eu vou ver. Quem vê seu primeiro corpo sou eu. Eu vejo assim como quero. O nosso corpo. Exatamente como queremos.          
Mas ela tem um corpo que não esquece o passado. O corpo terceiro. Dormitório de parede virgem e móveis intactos que o rastro de pó modela silenciosamente a presença dela por ali. Mas um prego qualquer, encravado como a vida na parede, diz que qualquer coisa o cobrira tornando-o útil... Por vezes a dona do corpo procurara um quadro para adornar. Para disfarçar a qualidade quadrada desse seu quarto e de sua existência. Uma decoração para adorar a si mesma, se pudesse. 
(Eu poderia não escrever sobre isso em nosso disfarce!)
Poderia deixar a parede virgem com seu quadro de árvore cortada. Cerrada do tronco, deixadas sua raiz e suas folhas ainda verdinhas jazerem no chão como um tapete de que tudo vai muito bem, obrigada, mas que muito dela ainda morre ali. E que muito dela faltou em sua própria vida. Essas folhas e raiz ameaçadora dos passeios são retiradas para não atrapalhar o bom andamento dos transeuntes moralistas. Retiradas com violência, como a submissão consternada ironicamente por esse substantivo feminino: violência, resta uma raiz escondida, frustrada embaixo da terra, com sua semente evolutiva arrancada. Todas as vezes que ela passa pelo seu terceiro corpo ela lembra que uma vida germinou ali, um sentimento sonhado que, um dia, germinou ali a sua própria arvore. Sim, agora sim é a ausência. Ela sente que é a sua própria ausência. Custa-lhe muito esse sentimento. Diria que, essa derrota. Nem seu marido, nem sua descendência passarão por essa árvore morta entendendo que se trata dela mesma. Eis uma ausência. Foi uma substância do passado em transparência. Essa árvore tinha as suas iniciais de nascença.
O próprio nome abafado no grito de uma postura social em que a mulher serve de enfeite para sobrenome de marido. Eu sei do seu terceiro corpo que volta ao passado. Um dia ela foi a menina que brincava com bolhas de sabão... Sonhava ela mesma como se soltasse aquelas bolas no ar. Liberta. Tudo, de repente, parecia final feliz. As bolhas seguiam ora com trajetórias calmas, ou as pequenas e rápidas pelo ar, acompanhadas do vento. Até que... Elas estouram... Então, ela, hoje, mulher se espanta. Então ela lembra que o final feliz não existe...
Mesmo com o susto ela se liga a outra dessas bolhas sopradas ainda viva. Mas, mais uma vez essa crença a trai. Ela estoura no seu ar, ficando ainda mais difícil acreditar em alguma coisa que sua meninice sonhara. Para ela, a tragédia por vir estava nas gotas que umedeciam pobremente o seu chão de mulher adulta. Ela olha para o ar e seu sonho tornou-se estéril. Olha para o chão e contempla no resto de pingos o que sobrou de seu mundo. 
Ela retira de sua ausência o que a presenteia. Do chão – ou do salão – resta o que um dia dançou no ar secretamente. Eu estou aqui. Em meu corpo que é dela. Que felicidade medrosa...

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