Pular para o conteúdo principal

Um tato

Um tempo que voa. Foto: arquivo pessoal.

Dizem que, quando transbordamos imageticamente do outro, devemos fechar os olhos para retirar essa personalização de dentro de si, colocando a pessoa sonhada em nossa frente para realizar com ela aquilo que sua angústia pede. Eu assim a abracei tão forte. Uma coisa sua que ficou em mim, sem fim, sem apelo a vida.
Assim, a saudade é um tempo de dói. Um tempo que voa... Entre aeroportos. Um tempo que suspende o sofrimento sorrindo escapismos orgulhosos. Um tempo com essa vontade de voltar para ontem que se cura com o amanhã.
Tenho sido gentil com quem me abre caminhos. Em todos os lugares do mundo que eu for, eu fotografo a paisagem mais bela se tu estiveres junto (pelo menos, o meu pensamento em ti). Num retrato, Amor é sombra em calor escaldante, enquanto o inverno, aqui-externo, é a preguiça do sol.
Ela é um tato cego. De um lado a pose, d’outro o ensaio: jamais saberia ser bela, atraente e sensual se me pedisse que fosse. Eu, talvez, tornar-me-ia algo bizarro fidedigno d’uma risada escachada e sagitariana. Jamais saberia ser se me pedissem que fosse. Sou apenas o que não querem qu’eu seja. Por isso, não queiras! 
Não queiras nada de mim
a fim de que eu possa ser tudo 
rendido ao teu desejo.
Assim a abraço-cego com afã conformado-imenso. Logo sem medo de esconder de si o mando de Caio Fernando Abreu, suspiro-lhe no ar comigo-só: “posa para mim? Querer é desejo que nasce na minha boca natimorto, vendo seu olhar se vira absorto na delicadeza de só existir na obscuridade da beleza”.

Postagens mais visitadas deste blog

Prefiro uísque, ela vinho: a verve metafórica das idades

- Nota-se que nada está fora de lugar na minha casa. – Abri o uísque e o vinho, servi o copo e a taça.
- Exceto eu.
- Saúde.
- Ainda não entendo por que fazes tudo demasiado bem para o meu gosto...
- Digo-te “obrigada” ou lamento?
- Quem lamenta sou eu.
- Algo aprendi das mulheres – e que ainda não havia descoberto em mim – é que quando não se entende o porquê de suas palavras é que ela venceu a partida.
- Estou muito crescida para jogar.
- Não, não posso esquecer, já que a cada cinco minutos tu me lembras que és...
- Vinte e seis anos, Larissa!
- Vinte e seis?! Cara, eu pensei que era mais! Sério. Quando dizes: Ah, podias ter brincado com meus filhos... Ou, então, que minha idade se vive de sonhos e a tua de lembranças... Ou, “à tua idade não há nada impossível, a minha segue à espera d’um milagre, Larissa”. Sempre, sempre o mesmo! Sério, eu ju-ra-va que tu tinhas séculos a mais que eu!
- Que gênio prodigioso tens, professora Larissa. Característico da tua idade.
- Por que te afeta …

Entre amigas: a passividade do possível

Saímos e vagamos de Biquíni Cavadão: porque só isso nos restava após doze períodos de aula - uma preguiça à domingo, porque só isso nos restava enquanto a cidade morria mais um pouco. Fomos de chuva, à poça, à calçada quebrada, como Elis e Tom, ao fim do caminho. Um bar vagabundo e qualquer que vendesse um litro de Polar a seis reais. A luz da cidade apagou, e o bar, diferente dos sertanejos, desculpou-se e começou a gargalhar. Localizávamos no fim esconderijo do local, cobertas por aforismos filosóficos-literários, com Platão e Aristóteles somados a duas Polar sobre a mesa. O assunto do impossível ocorre:
L: O que nos mexe é a tragédia. Pensemos: por que não nos provoca certo orgasmo bisbilhoteiro nos interar da felicidade alheia? Porque o “insolucionável” nos move. O possível, cara amiga, nos leva à estabilização, à parada e à morte. O impossível é ativo.
M: Lembro-me de Quenau quando dizes isto. Ouve: A História é a ciência da infelicidade dos homens...
L: Cara, ele disse isso ant…

Mas aquele subterfúgio de te olhar casando...

Resistir, sofrer por antecipação isolando-se numa máscara de pausa tchekhoviana ao estender-se no palco dos teus olhos. O espetáculo é meu, mas antes lamurie para o meu silêncio a vaga dessa boca a estreitar-se do muito que lhe choro dentro de mim.
É uma oração! Clamo à Resistência na súplica a fim de que esse deus se convença e se infernize mais com o meu pensamento nela... Mas mais do ínferno satiriza-se o erro de não lhe falar... Mas não... A Resistência é a sabotagem da razão; um deus dela mesma que desta cruz na abertura dos seus braços a me saudar, eu fujo.
Que de boba eu não tenho um mínimo provérbio, apenas resisto. Amigo-me confortável no resquício laborioso igualmente assistido à sua palavra... Um fenômeno desfragmentado na sua verve sofista que mais crio a nós duas, futuramente.
Resistência: ela não quer. Desistência: ela me procura. Sigo-a. Ela fecha a porta. Não me deixa entrar.
Tenho de continuar a resposta para os lados... Não é o mesmo lugar quando outra se adora sobre o…