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Mostrando postagens de Agosto, 2017

Arcadismo e personagem

- Se um dia me contassem que eu me apaixonaria por uma ruiva, branquinha, rodando vestido florido em um amanhecer de vendaval contorcendo os trigais, eu diria que tal projeto de poesia neo-árcade é fraco, excessivamente romântico e sem criatividade. - Fico tranquila em saber que tu te negarias a fazer esse papel clichê. - A tua capacidade de incrementar versos e roteiros é impressionante, Larissa. - Alguém tem de quebrar a obviedade de um poema tranquilo e bucólico. - Bom saber do teu empenho para me fazer aceitar o papel. - Ah, que ardilosa és! - Há quem caia nas próprias armadilhas. - Deusas e poetas nunca dormem... Precisam zelar o sono alheio e sonhar antes. - És Deusa ou Poeta, Larissa? - Qualquer coisa desapegada entre uma e outra... O nome é de Deusa, mas os pecados são de Poeta.

Quando o mundo é o cortiço

Enquanto o mundo girava mais rápido pelos jornais que em torno do Sol, no andar da cobertura lá estava D’us em Sua cadeira de balanço. Ouvia-se, ao fundo, a voz de Elis Regina. D’us estava se distraindo na eternidade ao som de Casa no Campo...  Mas como ser onipresente que é, Seus ouvidos também atentaram para um burburinho fofoqueiro que citavam seu santo nome em redes sociais. Levantou-Se num rompante e pôs-Se a caminhar, meio cambaleando as cadeiras e as pernas por conta da idade, ora apoiando as mãos na parte lombo-sacra de Suas costas, preocupado em saber por que Seu nome era arquejado. D’us não é um cara de ter mídias sociais. Sempre achou antagônico ter senha para tudo, visto que a publicidade disso visava alcançar a todos (e até os “recalcados”). D’us ainda nem dispõe de tempo para tais mesquinharias, pois ao cuidar desta grande creche chamada Terra, o domínio de algumas salas às vezes torna-se inviável. São alunos problemáticos. D’us chama: - Arcanjo! E lá estavam todos os a…

O homem que insultava o mar

Enquanto eu passava temporada numa praia gaúcha, há mais de dez anos, deparei-me com aquele jovem senhor situado numa rocha costeira, a proferir insultos ao mar. Xingava-o, blasfemava-o. Suas palavras de baixo calão tinham peso de elegia. Uma rima perfeita entre seu corpo fraco cobiçado com a impotência do maldizer. Atirava-lhe restos de pedregulhos quando as ofensas se repetiam, pisava em seus marulhos a cada encontro com seus pés, a cada falta de como humilhar aquele gigantismo do mar. Com uma amiga, eu realizava minha caminhada matinal pelo mesmo trajeto. E lá estava ele contra o mar. Estaria ele embriagado? Indagou a moça ao meu lado. O jovem senhor percebia já na sua esqualidez a despreocupação com a própria sobrevivência, a vitamina era absorvida na energia de seus insultos ao mar. Comida perdera-lhe até então o significado. Porém, de onde incidia a fortaleza de seus insultos? Completei com mais dúvida. Era como se um ódio débil e triste socorresse-lhe a própria vingança. Ele e…

E

Extenuada, exacerbo emoções. Escrevo, exprimo, expresso. Efeito: espasmos, ecos espirituais estrondosos. Educo elogios elegendo esperança. Elimino embaraços elevando ensinamentos. Eternizo efemeridades excluindo edições. Exercito estímulos explorando experiências. Economizo energia efetuando estabilidade. Elaboro enredos executando expertise. Engulo egos e entrelinhas. Emulo edificada egressa em ebriedade. Ejeto exílio existindo êxito excitado. Excluída, existente, exequível. Extrema, exultada, exaurida, exumada. Encaderno encalistrada estranhamente encaminhada. Encargo encaixado esbanjando erotomania. Ela. Erradicada escansão escanifrada em esquálida epopéia. Escada. Encruzilhada extinta: estilhaçada, emudeço, enfim. Espero esquecimento. Emudeço extinção. Esquizofrênica, eu?! Engraçada e excelente. Encerro espetáculos enganando espectadores. Escapo escondida espiando especulações. Espiando encontro. Espetacular, especular e esquisita. Especialmente enaltecida, eloquente, estendida e…