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O homem que insultava o mar

Enquanto eu passava temporada numa praia gaúcha, há mais de dez anos, deparei-me com aquele jovem senhor situado numa rocha costeira, a proferir insultos ao mar. Xingava-o, blasfemava-o. Suas palavras de baixo calão tinham peso de elegia. Uma rima perfeita entre seu corpo fraco cobiçado com a impotência do maldizer. Atirava-lhe restos de pedregulhos quando as ofensas se repetiam, pisava em seus marulhos a cada encontro com seus pés, a cada falta de como humilhar aquele gigantismo do mar.
Com uma amiga, eu realizava minha caminhada matinal pelo mesmo trajeto. E lá estava ele contra o mar. Estaria ele embriagado? Indagou a moça ao meu lado. O jovem senhor percebia já na sua esqualidez a despreocupação com a própria sobrevivência, a vitamina era absorvida na energia de seus insultos ao mar. Comida perdera-lhe até então o significado. Porém, de onde incidia a fortaleza de seus insultos? Completei com mais dúvida. Era como se um ódio débil e triste socorresse-lhe a própria vingança.
Ele está bêbado. – Ela apostou. Ele não está bêbado. – Discordei. A embriaguez jamais deixa rastro tão religioso com horário e sermão. A única coisa que assemelha embriaguez a religião é o desespero de encontrar algo salvador para os seus problemas utilizando sua divina miséria e incapacidade humana. Se fosse assim, a confusão do que é santo com a vertigem já teriam levado aquele pobre e jovem senhor mar a fundo... O que não ocorreu.
No outro dia de nossas férias encontramos um guarda. Como temíamos um acidente com aquele jovem senhor, participamos o fato à autoridade que logo nos tranquilizou. O jovem senhor jamais esteve ébrio. Tornou-se “variado nas ideias”, segundo o guarda, após perder o filho, afogado, para o mar.
O guri jamais seria encontrado. 
No entanto, o jovem senhor (e pai) religiosamente cumpria seu ritual de proteção ao filho atiçando o mar para briga. Em sua cabeça possivelmente um cenário épico em que a espada de sua elegia garantia o corte retalhado na cara de uma criação divina. Seu filho era mais divino! Mas seus frágeis braços de pai jamais resgatariam a presença do pequeno. O mar acolheu como filho a vida dele. O jovem senhor (e pai) agora cuidaria de outro filho, o Luto. Avaliado o papel de pai... Luto: a dor do parto de uma saudade que ele criaria, veria crescer e morreria antes dela. 

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