Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Setembro, 2017

Contagem regressiva (e cíclica como o pesar de que a vida tem que continuar)

Sessenta, o ano daquele filme francês: À bout de souffle. Cinquenta e nove, o segundo anterior ao próximo longo minuto. Cinquenta e oito, os números na agenda. Cinquenta e sete, a idade. Cinquenta e seis, os batimentos cardíacos. Cinquenta e cinco, as fotos no celular. Cinquenta e quatro, os papeis embrulhados na gaveta. Cinquenta e três, o valor da última fatura. Cinquenta e dois, o bater impaciente das unhas na mesa. Cinquenta e um, cinquenta, a dúvida entre uma medida e outra. Quarenta e nove, o seu peso. Quarenta e oito, o número da música escolhida. Quarenta e sete, as vezes que passou as mãos no rosto impedindo as lágrimas. Quarenta e seis, os restos das mesmas unhas, agora roídas, em cada canto cuspido. Quarenta e cinco, o bolo no forno. Quarenta e quatro expirações de cigarro. Quarenta e três toques de salto alto. Quarenta e duas grades na janela. Quarenta e um, o final do último carro que passou. Quarenta metros de altura. Trinta e nove, as voltas giradas no cofre. Trinta e …

Interpretação velada

A segunda noite. A segunda fileira do teatro. A segunda vez. A segunda voz, a minha alma ouvinte. A segunda sonata de Chopin, as segundas intenções de George. Segunda-feira. Estrofes de Musset em linhas compostas de Liszt. Segundo amigos, os coveiros tinham de levar o ataúde com a lentidão da humanidade, ora em partitura, ora em poesia. Diversas notas de seus noturnos continuaram no monólogo dela. Era uma biografia de pareceres alheios. Eram vinte vidas em oitenta anos... A voz dela! Ela tem uma voz! A voz dela é o mais fio veludo do feminino. As palavras proferidas por ela ganham vestidos de gala aos meus ouvidos. Ouvi-la: os olhos podem seguir fechados ou abertos em posição de sonho. A voz dela guia a dança entrelaçando pontos, vírgulas e valsa de sintagmas. Ela é reticente. Questão de confiança, amabilidade e até de paz. Detalhe: sabe-se o verdadeiro significado de não dormir de tanta paz. Ouvi-la: calçar o salto mais alto e devagar ser pétala que desliza junto ao caminho da rosa-…

No fundo de si, mas na base de um relacionamento

Repara bem. Mesmo quando te afundas no breu da profundidade de ti mesmo, há sempre um rastro de luz para trazer-te de volta. Repara bem. Quando mergulhamos, nos sentimos como anjos de nós mesmos, voando para baixo. Saudade é querer dividir contigo tudo o que não consigo ver sozinha. Tudo que move é sagrado. Aqui dentro e lá em cima, na base. Lá em cima, sabes como é um início de relação: os assuntos ficam suspensos e há cuidado excessivo com as palavras.  Mas tudo o que precisava ser dito, foi. Mergulhei com aquelas conclusões tristes de renúncia, de paixões mal resolvidas e essa necessidade imensa de ser autossuficiente e ter certeza, ao regressar para a base, da escolha de estar junto a ti porque não há outro meio, outro rastro de luz que não seja tu. O raso tem me apavorado! Eu tinha me avisado que o sangue é mais denso e cego que a água. Tu sabias e disseste que torcerias para eu não sentir tua falta. Pareceste-me sincera. Tanto que, quando voltei à base, lá estavas tu me gratifi…

Troca

Troco meus pensamentos em ti por um carinho teu. Pode ser pouco, mas é honesto.  Troco qualquer retrato que eu tenha feito do teu conhecido sorriso pelo teu conhecimento sobre o que eu sinto, mais a generosidade da tua compreensão.  Tua imagem poderia somente causar estremecimentos em mim, mas ela insiste em transbordar no mundo, ou, talvez, transformar o mundo através de qualquer abraço fora de hora, uma mensagem de apreço permeada de boas risadas, lembranças e uma despedida minha desculpada pelo tempo curto do meu labor ou por eu tentar mostrar a fingida vaidade de ser livre e sem propriedade. Mas te tenho um ato de amor. Amor que não sabes. Não sabes, mas troco minha vontade de ser guache na vida por um apego a ti. Mas te tenho afeto de janela aberta... Amor livre em que não me importa a aliança que carregas na mão esquerda de teu limite. Esquerda, involuntariedade cardíaca... Limite. Leio-te na cartomancia do teu matrimônio um Machado. Uma ironia pincelada com a tinta da galhofa …

Depois do expediente

Foges comigo para o meu lugar preferido? Quero preencher contigo a agenda vaga dos meus dias. Claro: palavra que abre caminhos. Seja no aceite, no amanhecer ou no deitar do expediente à cara do entardecer. Aeroportos e aviões e idas e vindas já me despertam normalmente uma sensação de não-pertencimento e nostalgia. Se a chuva cair... A chuva dilata qualquer sentimento. Não. Não disfarces covardia com propensão à calmaria. Joga-te, confia e ajuda-me: sê interessante, fala de ti e do mundo. Não te quero em foto perfeita, de profissão sem paisagem, de pose, de posse de cargo ocupado, de efeito e pouca comunicação. Quero-te verdade e despretensiosa porque tens emoção, tens história. Tens troca e visão além dos olhos. Ver-te beleza do dia-a-dia sem que seja nos nossos encontros e destinos passageiros.  Quero-te que me permitas ser triste e isenta. Fala do que vês, do que lês, do que sentes, do que queres. Dá-me a vontade de puxar a cadeira e servir um mate (ou passar um café). Sugere-me t…