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Contagem regressiva (e cíclica como o pesar de que a vida tem que continuar)

Sessenta, o ano daquele filme francês: À bout de souffle. Cinquenta e nove, o segundo anterior ao próximo longo minuto. Cinquenta e oito, os números na agenda. Cinquenta e sete, a idade. Cinquenta e seis, os batimentos cardíacos. Cinquenta e cinco, as fotos no celular. Cinquenta e quatro, os papeis embrulhados na gaveta. Cinquenta e três, o valor da última fatura. Cinquenta e dois, o bater impaciente das unhas na mesa. Cinquenta e um, cinquenta, a dúvida entre uma medida e outra. Quarenta e nove, o seu peso. Quarenta e oito, o número da música escolhida. Quarenta e sete, as vezes que passou as mãos no rosto impedindo as lágrimas. Quarenta e seis, os restos das mesmas unhas, agora roídas, em cada canto cuspido. Quarenta e cinco, o bolo no forno. Quarenta e quatro expirações de cigarro. Quarenta e três toques de salto alto. Quarenta e duas grades na janela. Quarenta e um, o final do último carro que passou. Quarenta metros de altura. Trinta e nove, as voltas giradas no cofre. Trinta e oito, o calibre. Trinta e sete, o volume do som. Trinta e seis anos de casamento. Trinta e cinco portarretratos pela casa. Trinta e quatro, a idade da sua primogênita. Trinta e três, as pessoas da família que ela tem de disfarçar. Trinta e dois, a idade daquela que ama. Trinta e uma vezes repetindo monossílabos de fuga. Trinta bilhetes rasgados. Vinte nove segundos para mais uma bituca se queimar totalmente. Vinte e oito dias de solidão. Vinte e sete andares. Vinte e seis pétalas arrancadas das margaridas sobre a mesa: mal-me-quer. Vinte e cinco, o versículo. Vinte e quatro vezes que olhou para o celular. Vinte e três cores diferentes nos vitrais da sala. Vinte e dois, a temperatura. Vinte e um, a data no calendário. Vinte, faixa 20 do álbum “Como dizia o poeta”, de Vinícius de Moraes, “Soneto de amor total”: Amo-te a fim de um calmo amor prestante e te amo além, presente na saudade. Amo-te, enfim, com grande liberdade. Dentro da eternidade e a cada instante. Dezenove alternativas: desistir, dormir, esquecer, matar, sonhar, ligar, ir, deixar, parar, insistir, escrever, assumir, dançar, vomitar, mudar, fugir, comer, cantar. Morrer. Dezoito a linha, na página dezessete: Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste, Fernando Pessoa, Livro do Desassossego. Dezesseis livros na estante, de escolha aleatória. Quinze frustrações. Catorze promessas a si mesma. Treze pontos contados no terço religioso em sua mão. Doze lâmpadas acesas. Onze passos até a janela novamente. Dez chamadas: caixa de mensagem. 99**-****. Oito dígitos... número decorado. Sete, o número que rege sua data de nascimento na Cabala. Seis metros do telefone. Cinco toques no violão da filha, suspenso na parede do quarto vazio. Quatro frases decoradas de quando a ouvia cantarolar. Três horas da manhã. Duas garrafas de uísque. Um, o tiro fatal no próprio peito.
Sessenta, os que choram no enterro.             

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