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Improviso e emoções alheias

A noite passada sonhei com ela. Despertei e ficou aquela sensação de pseudo-esquecimento. Não tenho pensado nela, mas parece que alguma parte inconsciente insiste em mantê-la por perto. Acredito que, por vezes, a mente crudelíssima e o coração – misérrimo coitado – carregam a culpa. 
Levei o gosto da injustiça e da contrariedade do tempo, por todo o dia, na boca e no processo digestório. Cheguei à minha casa e mantive as luzes apagadas. No entanto, a posição do saxofone, do microfone e da caixa de som no meu quarto sempre encontra e reflete qualquer raio de poste, de grades, de vizinhos, de luas. É propositalmente poético, eu sei. Tenho competência ao arquitetar emoção. Dirigi-me até o sax e cantarolei uma canção qualquer entremeando ainda em pé o dígito de algumas notas.
Não era hora de tocar, quer dizer, mas eu gosto. Quem não? Apenas não sinto segurança, faço-o escondida e sozinha porque – creio que mais pela raridade que pela afinação – sempre que me apresento em público vira um evento sem sentido. Profissionais da música afirmam que sou boa saxofonista e que tenho potencial, mas não acreditarei, já que eles são excelentes.
O fato é que toquei saxofone, sozinha e no escuro, à noite, em Santa Maria: “Foi bom te ver, saber que você é feliz. Impossível de te esquecer, lembrar de você parece um dom...”. Até ouvir um respirar mais forte atrás de mim. Era outra moça que eu tenho amor livre. Era outra moça emocionada. 
Não é que a saudade, não encontrando corpo em mim, fez-se em sopro e melodia e foi escoar pelos olhos dos outros? Escoou. Enfim.  

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