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Mostrando postagens de Março, 2018

Talvez isso seja cinema

Preocupa-te com: a qualidade do som, da trilha, do diálogo, do silêncio, do cenário, da luz, do ângulo e, até, do fim. Assim disse que aprendi com ela a ter uma vida de cinema. Levei bronca! E das boas. Disse-me então que eu já sabia, sempre soube (e sozinha), inclusive melhor que ela. Exigiu que eu trocasse o elogio, pois não queria méritos que não eram seus. Há qualquer coisa de grande e boa e generosa quando a companhia não me deixa esquecer quem sou, independente de. A velha vaidade “eu sou mais eu” que ela reforça com o prêmio de não me deixar subjugar a mim mesma.  Talvez isso seja amar. Enquanto eu grifo o livro, ela repara a sutil pincelada do sol e me lê, também, com suas partes (do meu corpo) favoritas destacadas. Arranca-me um sorriso com a brincadeira indecorosa, mas não a atenção. Leitura, um privilégio sério como nós duas. E recuso-me a aceitar que nossa diversão dependa da falta da liberdade alheia.

Rio Avon à Lygia Fagundes Telles

- Vou fazer de ti uma boa lembrança no aquário. - Duvido. - Prende o cabelo, fica desse lado. Ela me beija apressada os lábios enquanto tira o celular da bolsa e dá a volta, rumo ao outro lado do vidro. Entoa “Kissing you” em seu aplicativo de música e me olha como uma Julieta, com os olhos cinzas lúcidos, confundidos com a água. Sorrio-lhe contrariada... - Sabia que entenderias... – Ela diz enquanto revivemos a cena clássica. Eu entendo. Vocês entendem? O corpo adoeceu, a alma invejou. Deu saudade... “Somente abras esse envelope quando tiveres muita saudade. Mais que puderes aguentar. Tu prometes?” Assim como a porta de Tóquio em La Casa de Papel, mas não levado a sério. Concordei, porém levo. Não abri, ainda. Namorada que vai para longe e me faz aprender a diferença entre curiosidade, falta, amor e saudade. O que me contará o interior deste envelope. Algo me diz que um dia vou descobrir. Não hoje.

Concentração

Eu pensei em dizer: um beijo pelo teu pensamento. No entanto me senti tão egoísta e prepotente em achar que uma satisfação pessoal minha é mais importante que alguma coisa que se passe na tua mente privilegiada. Ela me disse isso depois de eu ficar uns vinte minutos a observar pela janela a garoa fina do fim do dia se tonalizando com a expiração nicotinada do meu cigarro de dia nebuloso. Suspirei fundo a ira do alcatrão. Retruquei: Eu pensava em quais são as probabilidades de qualquer transeunte ser um poeta que me olha de relance na janela, que componha um poema anônimo qualquer sobre a cena da sexta-feira chuvosa criando um amor platônico que inspirasse um único, um par, uma dezena, quiçá centenas ou milhares de outros seres em um livro de poesia que passará por sebos empoeirados e prateleiras entulhadas de exemplares mal lidos e mãos aleatórias de bibliotecas pouco habilitadas que jamais saberão que a moça que fuma à janela somente queria ser interrompida por um beijo de mera sati…

Faces: um ensaio sobre a (nossa) qualidade única

O que é o plural senão um significado de direitos? De pleno gozo de direitos. Agir e discursar, características humanas, apreendem a performance coletiva da formalidade pública, é dizer, que concede à palavra política o conceito de sua ação, constituindo-se por todas e diversas representações.    Agir traz a política ao Ser: do que quero/queremos ser. Quem sabe o fato seja entendido como aparência, porém, que então encontre a dimensão performativa nesse tempo de direito a ter direitos, cuja ação promoveria efeitos interessantes e surpreendentes (para o bem) na cena publica: liberdade e igualdade mobilizadas para além de suas articulações positivas.   Liberdade é o reforço da própria responsabilidade. Dois substantivos femininos, aquela primeira que assim pode começar a ser exercida a partir do que se reivindica. A autoafirmação como resistência prenuncia o diagnóstico crítico sobre a produção identitária de gênero. Do feminino que assume o referencial para pensar e atuar os movimen…

Consumir e ganhar, e a sós (nada) pensar

A teoria busca intervenção. A prática elenca critérios. Superar a transformação da realidade compreende a tarefa instrumental da atividade intelectual com estatuto de procedimentos que partem da justificativa, do incômodo, por vezes interessados (aos mais emotivos) das atividades espirituais. A metafísica – desde Pessoa a Heidegger – favoreceu o ambiente pesquisador como tradutor hermenêutico da entrega e do resultado – fosse uma ilusão proustiniana de qualquer tempo perdido, ou de Milton, no que se refere à perda de um paraíso em outrora afirmação de aproveitar ou sobreviver, tal as dicotomias da vida... Com a fenomenologia da vida ativa, a exploração do interesse diluiu a oportunidade na servidão e consequentemente a felicidade tornou-se sinônimo de saciedade. O estatuto do pensamento – além do caráter problemático no exercício de pensar – traça um vínculo distante da possível valorização do diálogo e da convivência. A condenação pública a partir da sociedade de consumo levou o diá…