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Mostrando postagens de Junho, 2018

Aprender a

“Sou assim porque aprendi a”. Cometemos sociamente um erro eterno ao naturalizar o aprendizado no que se refere a sexualidade, aliás, ao conduzir o aprendizado para a anulação na instituição do Eu, naquilo que Eu nasci.  Disse-me ela: Sou heterossexual porque aprendi a gostar do sexo oposto, mas hoje, se eu tivesse a idade do meu filho, isso seria muito diferente. Confesso para você que há vezes em que me percebo admirando mulheres, não apenas pela pessoa, mas por sua figura feminina, sua beleza. E não mais me corrijo o olhar como antes... Respondi-lhe: Boa notícia! Você não precisa ter a idade do seu filho para isso.    Para o bem do seu Eu e do seu Si-mesmo: não aprenda a Ser! Seja o que nasceu com você, sua natureza. Eu também aprendi a, aprendi geografia, matemática, sintagmas nominal e verbal e isso não quer dizer que eu goste! Colocar o “aprender a” como processo cartesiano de naturalidade subjetiva desvia a felicidade do Eu que faz – e não há algo mais propagador que a própria…

Do sol que dormita

Raiar: da conjugação levar ao outro qualquer contato divino com o que nos mantém vivos. Todo verbo é poesia. Do conjugar que se despe da vaidade sem se despir da beleza e que a isso se denomine nobreza. Emoldurada a tudo isso, pendura-se no teto para quando eu quiser me sentir alguém. Abaixo dele, a saudade é este cobertor vazado: aquece, mas súbita e invariavelmente me assusta a pele ao menor vento frio. Proust alertou que quando se sente falta de um lugar, na verdade, sente-se falta da época que corresponde a esse lugar. Não há saudade do espaço que não seja antes saudade do tempo. Quando o vento convidar você para dançar, vente. Pode o trabalho atrasar o ensaio, mas eu atraso o cansaço. Não adio o que me arde. A prioridade é a arte que me salta às veias e a coragem. Talvez uma teoria precipitada que se sujeita a busca de qualquer efeito comunicativo, um verbo de domingo pouco valorizado no trejeito linguístico coloquial: morgar. Morguemos.

Em nome (finalmente) de mim

Exaltar a primitividade de apenas ser, sem a civilidade de consumir, sem a serventia da hierarquia. Não há mais o excesso em mim. Aproveito os dias entre médicos, perícia, um exame e outro para parar e sentir. Plantar. Colher. Sustentar. Respirar. Fotossintetizar. Devolver ao mundo um tanto do que ele me dá.  Todas as ciências de baixa tecnologia. No encontro com amigos, já anoitece lá fora – aqui dentro finda – e não mais se distingue o que é céu e o que é sombra. Rapidamente é pintado com arte e amor, que é apenas nosso, este tanto de vida que desperdiçamos com qualquer coisa menos importante que viver. Amigos – de pupila – me redimem e me ilustram e eu agradeço muito por isso. Preenchem minha falta e me realizam o presente que eu sempre tento lhes ser. Espero que consiga e que a noite vire o seu dia... Oi, descanso. Faço, de novo, sagrado. Nada como a madrugada que termina em café com os amigos para me encorajar nas decisões que já estão comigo. Apenas precisava de paciência, amor…

Amigo-ombro

“O medo é o caminho para a desfeita do sucesso”, diz o amigo-ombro citando uma posição na escola em que hoje sou totalmente ignorante. Em casa peço uísque para ter coragem. Quem nunca? Para que assim nunca, num breve espaço temporal ébrio, me sinta impedida de criar legendas elaboradas por total desconhecimento, apenas descobrimento do universo da escola. Descobrimento em que amigo-ombro é um conceito, pois “ombro amigo” é colocar o membro acima da presença. Não falta apenas gasolina. Falta empatia, educação, gestão, cultura, leitura, sensibilidade, noção, proteção, sensatez, compaixão e respeito. Falta muito do que deveria nos mover. Falta muito. Abro o Livro do Desassossego porque algo em mim precisa se organizar ou curar. Como uma oração que beira Hilda Hilst à mecanização desafiadora da morte na audácia santificada. O caos brilhante é tão somente o que me interessa. “Quando algo te fere, eu duvido do mundo”, analisou o amigo-ombro numa intenção coletiva de oração. É gente que imp…

Nostalgia sempre nos é sábia

E se a inteligência for a não comunicabilidade de por que estamos aqui nos sentindo superiores enquanto os outros nos olham com piedade porque estamos perdendo tanto tempo discutindo bobagens irrelevantes e eles permanecem quietos?
Quem sabe uma conversa bacana, a de ontem, que se tornava legenda num filme ideal. Quem sabe a volta daquela risada linda que vale mais que qualquer “papo cabeça” que se tornam legendas... Não tive a gratidão daquela que me tirava do salto, dos livros, das marcas – as do mercado, do corpo e da alma. Tirava-me da alma o tempo de quando os cabelos eram mais longos, os dias mais claros, as preocupações menos densas, as companhias mais certas e os caminhos menos sinuosos como uma distopia do Poema em Linha Reta do Fernando Pessoa. Envelhecer cansa. Adoecer consola. E quando eu falo que preciso desabafar e os demais param a orquestra de seus afazeres para me ouvir: é quando eu me sinto alguém de verdade e, de repente, o desabafo não tem mais sentido e a gente vo…