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“Com os olhos de comer fotografia”

Pedi-lhe uma fotografia de instante. Um registro daquela singela desfaçatez vaidosa e despreparo de pose. Os cabelos encaracolados, presos em um coque-amélia de subserviência, divagavam o caminho elíptico de lenta tessitura rendida de seus olhos fechados – quase fechados – um feixe ainda entregue ao meu foco estático que ela soubera fazer imagem, fazer cinema de mim! Em uma rápida censura, a educação de sua alvura diáfana assinou o nome de Fragonard: a young woman reading. Sua pele à fresca da modernidade foi a imediata poesia àquela obnubilada essência triste antes em meus olhos. Estes endureceram junto às digitais na tela e minha língua rija na cala sôfrega da virtualidade. O rosto que ela me permitiu era todo um corpo, um nascido afinado de pequenos detalhes que compunham uma outra mulher de contornados seios que me olham através da Íris mensageira dos deuses – conectando o mundano e o celeste para um átimo de relação amorosa full-screen – e de intensa cor – eram seus lábios vagin…

Todo dia (especialmente nesta semana)

Às pessoas que passavam por mim refutando o clima chuvoso com interjeição indagada de participação coletiva reclamante “ah, que horror, né?!” eu respondia “um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem; cada um como é”, bonitos à sua maneira, propícios a diversas tarefas para quem não se esconde na queixa. Logo, algo que me chamara atenção veio da paciência dessas pessoas ao pararem silenciadas ante a lógica pessoana. Encontraram a raridade e em mim o halo dos desaparecidos? O sinal da escola soava, os carros passavam, o pátio era um odeon de premissas e pressas até que o espaço concreto se tornava o próprio ar de langorosas difusões de olhares e palavras, como a água corrente de efeito apenas seu e intransferível. Não era coisa esperada. Tampouco suas caras! A matéria parou. A matéria reflexiva, o guarda-chuva que não fechava, a pressa que cessava. Eu queria realmente aquele gesto em seus olhos – a aura após a cegueira. Pareciam, cada um a seu tempo, enfim, na companhi…

Cada quadra representa uma saudade...

Hoje São Paulo despertou nebulosa, fria como a canção de Tom Jobim que busca o amor pela metrópole. No aeroporto, a bandeira a meio mastro, uma manhã nervosa. Eu também não queria ir, minha Sampa, mas eu te dedico: vou voltar, vou voltar! Uma música sabiá de canto melancólico e exilado, dos mais lindos silvos de Jobim, para este nosso até logo de futuro próximo feliz. Te amo, São Paulo. Sigo com o Tom, Querida. Longa é a tarde, ah, a tarde... Essa melancolia do dia, segundo José de Alencar; e nela, longa é a estrada de quem se despede... Não há sobejo de abraço quando o pranto carrega em si o lugar mais fundo para mergulhar. A forma imersa define a intimidade. O tempo permanece enquanto se acredita, mesmo com olhos náufragos no embaço da confiança, aliás, do amor. Permito-me a Sabiá de livre canto mais belo com tristeza. Os passos lentos de uma mórbida reação de ódio, ou de despeito, talvez de birra adolescente que desacorda com o dia que passa, e eu, nessa lida.